Turismo Activo: um segmento onde Portugal ainda tem muito que correr…

Ambitur online, 21.08.2014

Não é novidade que Portugal tem inúmeros lugares para a prática de turismo activo. O clima excepcional, com poucos períodos de frio e chuva, a par com a enorme diversidade de oferta existente, fazem deste um país com um grande potencial neste segmento. No entanto, e apesar de constarem no Plano Estratégico Nacional do Turismo 2013-2015, parece haver ainda um longo caminho a percorrer em determinados nichos. São os casos do turismo náutico e de natureza.

Comecemos por Lisboa. É aqui que Pedro Sá Vieira, responsável da LisbonByBoat, tem há alguns anos o seu negócio. E é aqui também, na mesma cidade que tem vindo a registar nos último meses um aumento de turistas, que se nota algum “desprezo pelo rio”.”Muito se tem feito pelo Turismo em Portugal, e especialmente em Lisboa, mas ainda temos um longo caminho pela frente se compararmos com a generalidade das capitais europeias até percebermos que ‘o Rio também é Cidade’”, afirma, acrescentando que “temos falta de infra-estruturas de logística e de apoio à beira rio e mar, que possibilitem o desenvolvimento e investimento por parte das Empresas Marítimo-Turísticas na Actividade Náutica”. O responsável destaca ainda que  apesar de “termos das melhores condições naturais ao nível europeu, temos muito pouca ou quase nenhuma promoção turística, quer dos operadores, quer dos agentes, quer das associações de turismo, em relação ao Turismo Náutico”.

Uma opinião também partilhada por Adelino Cardoso, director da acção cooperativa e comunicação da Mútua dos Pescadores. “Quase todos os indicadores revelam que muito há ainda por fazer nesse sector. E os dados comparativos destas actividades no produto interno bruto, com a realidade de outros países, designadamente da União Europeia, comprovam-no à evidência”, afirma. Para este responsável, para que o turismo náutico possa dar um contributo mais significativo para o desenvolvimento de Portugal, há ainda muito que trabalhar. “Desde a simplificação da legislação que regula o acesso e o exercício das actividades ligadas ao turismo náutico, passando pelos portos e postos de amarração, até aos estaleiros de construção e reparação naval, sem esquecer outras infra-estruturas e ainda os apoios financeiros”, assevera.

Uns quilómetros mais abaixo, e apesar de já nos encontrarmos em Vila Nova de Milfontes, em pleno Parque Natural do Sudoeste Alentejano e Costa Vicentina, a realidade assemelha-se. Carlos Lourenço é proprietário de uma empresa que proporciona actividades na natureza (NatureActivities). E também, na sua opinião e, especificamente, no que respeita ao turismo de natureza, “há muito a fazer”, “nomeadamente no que concerne aos parques naturais”.Para o responsável, tem havido “pouca “mentalidade” e estratégia no que respeita ao potencial deste segmento por parte das autoridades competentes que se têm dedicado quase em absoluto à vertente Sol e Mar, alimentando assim o turismo sazonal”.

Com  uma empresa em actividade quer na Madeira, quer em Sesimbra, José Saleiro, director da “Vertente Natural”,  entende que, apesar de haver muito que fazer no turismo de natureza, o caso do  turismo náutico é bastante mais preocupante. Também este empresário entende que  em Portugal Continental, “o turismo de sol e mar precisa de ser reinventado”.  Na  sua opinião, isto só pode acontecer “através da complementaridade do turismo  náutico, do desenvolvimento de actividades ligadas ao mar, mas actividades de  turismo activo e de aventura”, de que são exemplos, o mergulho, da canoagem, de  passeios de barco, do surf, do coasteering.”Fala-se que “os portugueses estão  de  costas voltadas para o mar, mas o que acontece é que os portugueses estão  voltados de costas para uma série de problemas que advêm da forma como se gere  o  mar em Portugal. Acho que se tem de procurar outros modelos de gestão, a  forma  como tudo está feito é pouco clara, as regras são pouco claras e a  pressão  que existe na área de mar, do ponto de vista da fiscalização não é a  mais  correcta”, assevera José Saleiro.Já no que concerne ao turismo de  natureza, o  responsável entende que há que ter planos de poluição nas áreas  protegidas, não  bloqueando o acesso às empresas, porque as empresas são as mais  interessadas  neste momento em conservar estes recursos que são a base do  seu negócio”.

Explicado  talvez pelos milhares de quilómetros de distância que os separam, a realidade  do  turismo activo nos Açores, aos olhos de Pedro Rodrigues, proprietário da  empresa  Trilhos da Natureza, parece apresentar melhorias. “O Governo Regional  dos  Açorestem, de certa forma, criado condições para as empresas poderem  desenvolver  o seu negócio, nomeadamente, a constante manutenção dos trilhos, e  a melhoria  dos acessos para algumas actividades”. Afirmando que, como em tudo,  há coisas a  melhorar, o responsável destaca que se nota “uma mudança de  estratégia na qual  se procura divulgar o turismo nos Açores não só como um  turismo de contemplação  /observação, mas como um turismo capaz de atrair outros  cliente mais activos  para outro tipo de actividades que não só o simples  passeio, mas para fazerem  passeios BTT, Canyoning, pedestres, enfim, todo o  tipo de actividade”.

Por Raquel  Pedrosa Loureiro

What’s Airbnb’s Future as Millennials Move from Backpacks to Briefcases?

Airbnb makes moves in business travel industry

Jul 30, 2014, http://www.emarketer.com/

Airbnb, a digital marketplace enabling travelers to rent and share private accommodations, has put a dent in the leisure travel industry, taking share at the low end from independent lodging properties. Now, a small but growing amount of business travel spending is shifting to Airbnb—a trend that, if it takes hold, could pose a threat to the broad hotel business, according to a new eMarketer report, “Airbnb and Business Travelers: Gauging the Impact on the Hotel Market.”

The impact of Airbnb is limited today because the service is often used as an inexpensive lodging alternative by younger travelers. Longer term, the threat could be substantial if these young leisure travelers continue to tap Airbnb once they become regular business travelers. Airbnb represents a rapidly growing niche of the accommodations market. According to a report by GlobalWebIndex, 8% of internet users in North America and 14% worldwide had rented rooms or apartments through a home and lodging rentals service in Q1 2014. Though US business travel use of Airbnb is currently a small portion of the more than $280 billion in spending forecast for 2014, expenditure is on the rise, driven by unmanaged business travelers and forward-thinking corporate travel departments. Mike Hilton, executive vice president at Concur, a company that processes $50 billion worth of corporate expense reports a year, told the San Francisco Chronicle that use of Airbnb had quadrupled every year since 2010, with the company expected to process $1 million of Airbnb expenses in Q1 2014. Michael Tangney, global travel manager at Google, told attendees at the 2014 PhoCusWright Europe conference that the company’s employees had spent $2 million on Airbnb rentals last year. As millennial travelers dictate an ever-larger proportion of business spending, Airbnb corporate adoption is likely to become a mainstream behavior. In a November 2012 survey by JWTIntelligence, more than half of millennials (those ages 18 to 34) said they would use a peer-to-peer service like Airbnb—a far higher percentage than Generation X and baby boomers. “Once millennials, who today use Airbnb for leisure travel, move up in their companies to positions that can dictate travel policy, Airbnb is on its way to being a legitimate accommodations choice for Fortune 1,000 corporations,” said Jan Freitag, senior vice president of strategic development at accommodations data company STR, in an April 2014 guest post for HotelNewsNow.com.

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O que os visitantes gastaram em Portugal o ano passado

O que os visitantes gastaram em Portugal o ano passado

O gasto médio diário per capita (GMDpc) dos visitantes não residentes que visitaram Portugal em 2013 situou-se em 100,22 euros, abrangendo turistas (104,23 euros) e excursionistas (77,17 euros), indicam dados divulgados pelo Instituto Nacional de Estatística (INE). Os visitantes que se deslocaram a Portugal por motivos “profissionais ou de negócios”, prossegue, evidenciaram um GMDpc de 166,56 euros, o que suplantou em 66,2 por cento o gasto médio geral dos não residentes e foi 89,7 por cento superior no caso dos visitantes não residentes excursionistas. O modo de transporte revelou-se notoriamente diferenciador no que toca ao nível de despesas: os visitantes por via aérea tiveram um GMDpc de 129,76 euros, o qual foi muito superior ao observado na fronteira rodoviária: 47,96 euros.

Os não residentes que visitaram Portugal declararam, entretanto, como principais rubricas de gastos turísticos, atendendo ao valor médio diário per capita, os “transportes internacionais” (peso de 27,3 por cento no total), o “pacote turístico” (20,1 por cento), os “restaurantes, cafés ou bares” (16,9 por cento) e o “alojamento” (14,1 por cento). No caso específico dos turistas (visitantes com dormidas), as principais rubricas de gastos foram as mesmas, mas com expressão relativa mais elevada no “pacote turístico” e no “alojamento” em detrimento dos “transportes internacionais”. Relativamente aos turistas residentes em Portugal que visitaram locais no estrangeiro, destacaram-se, em termos de GMDpc, os “transportes internacionais” (18,0 por cento do total de gastos turísticos), o “alojamento” (16,5 por cento) e os “combustíveis” (16,0 por cento). Esta última rubrica representou 46,3 por cento dos gastos dos excursionistas (visitantes sem dormida) residentes em Portugal que se deslocaram ao estrangeiro.

Considerando os residentes em Portugal que viajaram para o estrangeiro, o “pacote turístico” (10,8 por cento) teve substancialmente menor importância relativa em comparação com os visitantes chegados do estrangeiro. Em contrapartida, os gastos em “supermercados ou mercearias” pesaram 11,3 por cento nos gastos turísticos dos residentes e 5,0 por cento no caso dos não residentes.

O INE divulga, neste destaque, os principais resultados do Inquérito aos Gastos Turísticos Internacionais (IGTI) realizado em 2013, no âmbito do qual foram realizadas cerca de 41,5 mil entrevistas válidas, 65,3 por cento das quais correspondentes a não residentes que visitaram Portugal e as restantes a residentes que se deslocaram ao estrangeiro. A recolha de informação decorreu nos aeroportos de Lisboa, Porto, Faro e Funchal (que em conjunto permitiram recolher cerca de 56 por cento das entrevistas) e nas fronteiras terrestres de Vilar Formoso e de Monte Francisco (Castro Marim).

Fonte: Welcome media, 31-07-2014

Gasto médio diário dos não residentes fixou-se nos 100,22 euros em 2013

São os turistas provenientes de fora da Europa que mais gastam em Portugal. Segundo o INE, considerando apenas os turistas entre os visitantes não residentes, verifica-se que em todas as origens fora da Europa, o GMDpc foi superior ao valor médio global. Com mais do dobro do GMDpc médio, destacam-se os turistas provenientes do Brasil (GMDpc de 277,42 €) e Angola (215,04 €). Nos turistas não residentes europeus sobressaíram os Russos com o mais elevado GMDpc (151,08 €). As Regiões Autónomas dos Açores e da Madeira foram aquelas em que os turistas efectuaram gastos médios por viagem  mais elevados  (entre 1 951 € e 2 436 €). Em média o gasto por viagem a Portugal foi de 1968 euros.

Já no caso dos turistas residentes em Portugal que visitaram locais no estrangeiro, e cujo gasto per capita se fixou nos  71,25 €., destacaram-se os “transportes internacionais” (18,0% do total de gastos turísticos), o “alojamento” (16,5%) e os “combustíveis” (16,0%), tendo-se verificado que esta última rubrica representou 46,3% dos gastos dos excursionistas (visitantes sem dormida) residentes em Portugal que se deslocaram ao estrangeiro. Os números são explicados pelo facto de quase metade dos inquiridos (47,9%)  viajarem em excursões.

Fonte: Ambitur, 01-08-2014

 

ADN da Distribuição: Um negócio de tostão gerido pela informação, por José António Rousseau

30 de Julho de 2014 por Hipersuper

Por José António Rousseau, consultor e docente no IPAM/IAD ADN da Distribuição; 20º e último gene: Processos/Tecnologias; O sexto sentido – 5ª parteOs tempos mudaram. Toda a gente o sabe. A crise recente, as rápidas mudanças de geração da internet, as alterações demográficas e a claramente perceptível tendência de padrões de consumo sustentáveis, tornam imperativo para a distribuição e para a indústria, compreenderem cada vez melhor as decisões dos consumidores e assim conseguirem reagir e actuar em conformidade. Mas, as regras do jogo não estão a mudar só para as empresas. Estão também, a mudar e muito para os próprios consumidores. Antes, em épocas económicas mais estáveis, as empresas investiam mais intensamente em publicidade e em campanhas promocionais orientadas para o mercado de massas com vista a atrair os seus clientes. Porém, nos dias de hoje, estas acções produzem cada vez menos impacto nos consumidores e ainda menos retorno para os produtores.

Por outro lado, é incalculável a quantidade de dados que diariamente são recolhidos nas lojas, a partir das caixas de saída e dos cartões de pagamento ou cliente, gerando um manancial precioso de informação ainda hoje, absurdamente, desaproveitado. Particularmente através das transacções efectuadas com cartões de cliente ou de encomendas online, consegue-se obter informação rigorosa e directa, não sobre o comportamento do consumidor em abstracto, mas sobre o seu comportamento em concreto, podendo este conhecimento ser a base para uma cooperação mais estreita entre parceiros comerciais e industriais através do desenvolvimento de actividades conjuntas de marketing. Sabe-se há muito que mais de oitenta por cento de todas as decisões de compra são tomadas directamente no ponto de venda através das diferentes modalidades de compra por impulso e não por se terem visualizado os produtos no meio da poluição publicitária existente, pelo que se tem que considerar de forma realista o ponto de venda hoje como a principal alavanca de vendas. Tal constatação obriga as empresas a terem que se esforçar mais para manter o interesse dos seus clientes, delineando estratégias de retenção e fidelização, mais exigentes e com resultados concretos e mesuráveis.

O comportamento do cliente fidelizado é caracterizado por uma frequência sustentada de visitas e de taxas de novas compras ao longo do tempo. Este padrão regular de comportamento significa que os clientes fidelizados tendem, de forma natural, a ser mais valiosos para as empresas a longo prazo. Contudo, o valor real dos clientes fidelizados surge como resultado do número de oportunidades que proporcionam a uma empresa para os cativar com a sua oferta e de retirar mais valor a partir deles. A motivação dos retalhistas para tentarem cativar os clientes fiéis não se deve apenas ao facto de estes serem os factores mais valiosos para uma empresa, mas principalmente, ao facto de o seu comportamento de compra regular e confiável fornecer aos distribuidores uma maior possibilidade não só de manter mas ainda de aumentar o seu valor. Desde que a Tesco lançou o seu Club Card, em 1995, foram inúmeras as empresas que têm seguido as pisadas deste gigante do sector retalhista, implementando esquemas que recompensam os clientes fiéis através da atribuição de pontos que podem ser trocados por descontos e produtos, como forma de criar uma adesão em torno dos seus relacionamentos com os clientes.

Em Portugal, o Continente com o seu cartão, líder absoluto em número de possuidores com 3,4 milhões de cartões activos, foi o melhor dos seguidores da Tesco, através do qual desenvolveu uma estratégia comercial em tudo semelhante à da empresa inglesa. De facto, uma das grandes vantagens da maioria dos esquemas de cartões de fidelização é o facto de estabelecerem um vínculo entre os clientes individuais e o seu comportamento de compra. Ao monitorizar as transacções dos clientes e fazer a análise das suas compras, os esquemas de fidelização podem permitir às empresas aceder a uma rica fonte de percepção dos clientes e definir tipos de clientes-alvo para os quais dirigir promoções e ofertas personalizadas. Para que estas acções tenham sucesso, as empresas têm que colocar as necessidades dos clientes no centro das decisões de negócio. A adopção deste tipo de abordagem centrada no cliente requer uma comunicação compreensível desta percepção, a um elevado nível, em toda a empresa, mas fornece também a profundidade e especificidade necessárias para a tornar viável de uma forma muito prática. Por sua vez, esta abordagem requer uma profunda compreensão dos clientes, obtida através de uma pormenorização num âmbito inteiramente empresarial, passando pelas categorias e chegando ao nível dos clientes individuais e produtos.

Assim, criar valor através de processos e de soluções que permitam às empresas fortalecer a sua relação e obter melhores resultados nas áreas da gestão de categorias, do merchandising, da gestão do ponto de venda e da gestão do sortido e do aprovisionamento é, na realidade, um imperativo categórico para distribuidores e produtores. Para o conseguir, distribuidores e produtores não poderão prescindir da oferta que hoje existe disponível no mercado em matéria de programas informáticos de software de gestão. Por exemplo, o software gráfico de elaboração de lay-outs que permite desenhá-los com facilidade, replicando o mobiliário e os elementos arquitectónicos mediante a utilização uma base de dados pré-definida; o software de gestão do sortido desenhado de acordo com os princípios do ECR de definição eficiente do sortido desde a definição de categoria, segmentação e papel do sortido até à geração de sortidos eficientes por subcategoria ou segmento utilizando para tal informação do mercado, das lojas e de estudos do consumidor; software de gestão do espaço loja, ferramenta de grande capacidade de análise e funcionalidades avançadas de desenho e integrada com as outras ferramentas já referidas; o software de análise integrada com capacidade para importar informação de milhares de planogramas integrados numa base de dados multi-dimensional que agrupa a informação de cada planograma e permite o seu estudo agregado; software de análise promocional capaz de avaliar o histórico das actividades promocionais, destacar as vendas incrementadas por cada promoção e simular cenários de vendas baseadas em novos planos promocionais. Todos estes meios tecnológicos são capazes de processar elevadíssimas quantidades de dados recorrendo a técnicas de dataminig, modelos e algoritmos específicos que permitem fornecer informação acessível, compreensível e projectável.

Antes destes meios, a informação dos clientes baseava-se apenas em dados de vendas recolhidos junto das lojas. Deste modo, os retalhistas sabiam quanto vendiam de tudo, mas ignoravam a forma como estas compras se dividiam entre diferentes tipos de clientes, ou de que forma os hábitos, necessidades e preferências dos compradores individuais influenciavam os seus comportamentos de compra. Recorrendo a esta nova perspectiva dos clientes, as empresas são capazes de desenvolver uma imagem das necessidades dos seus clientes e das suas preferências, compreender as interacções desses segmentos de clientes com os canais, categorias e produtos específicos sendo assim mais capazes de personalizar eficazmente a sua oferta e, desta maneira, corresponder melhor às expectativas dos seus clientes. Em vez de se basearem nas percepções ou observações dos clientes para obter uma descrição do comportamento dos clientes, as empresas podem recorrer às informações baseadas nos dados para desempenharem este papel. Entretanto, uma percepção baseada na pesquisa pode complementar adicionalmente as informações comportamentais, visto que ajudam a compreender as atitudes e sinais que induzem o comportamento. Quanto mais estreitamente se integrarem estes dois métodos, mais completa será a base sobre a qual as empresas podem desenvolver uma oferta que justifique a fidelidade dos consumidores.

Hoje, no mercado português, dispomos já de empresas nacionais e internacionais que prestam este tipo de serviços aos distribuidores e produtores, pelo que não há mais desculpas, quer de uns quer de outros, para continuarem a trabalhar no escuro, ignorando o fantástico manancial de informação recolhido directamente dos seus clientes e persistirem assim a perder vendas, atribuindo a culpa a essa entidade esotérica e de contornos indefinidos a que chamam, resignada e desconsoladamente, crise económica.

Cartões de cliente: o que as lojas ganham com os seus dados pessoais

 

Oferecem descontos mas, em troca, registam milhões de dados que permitem traçar perfis de consumidores. Informação valiosa num mercado cada vez mais competitivo. Se comprou seis litros de leite de manhã, eles sabem. Se gosta de cozinhar em casa, eles sabem. Se tem uma família grande, eles sabem. Se anda sempre a correr e compra frango assado ao final do dia, eles sabem. Todas estas informações sobre os hábitos de compra cabem num pequeno objecto de plástico: o cartão de cliente.

Num mundo onde a partilha de dados é cada vez mais acelerada, marcas, supermercados, lojas de roupa ou de informática muniram-se de um poderoso instrumento. Em troca de descontos, acumulação de pontos, bainhas grátis ou eventos exclusivos, conseguem obter a informação mais valiosa de todas, determinante para aumentar vendas e oferecer aquilo que os clientes querem mesmo: o que compra, como compra, onde compra e porque compra. 

Os cartões de fidelização andam há muito nas carteiras dos portugueses mas poucos saberão da importância que têm para os retalhistas. É graças a eles que os hipermercados Continente (do grupo Sonae, dono do PÚBLICO) conseguem enviar vales de desconto quase à medida para uma família. Ou que o Pingo Doce decide que produtos vender em promoção. Ou que a Fnac consegue personalizar as ofertas que faz nas suas lojas. Influenciam a disposição dos produtos nas prateleiras, o tipo de artigos a oferecer, as tendências, padrões, retratos das famílias, algo “fundamental e essencial” para conquistar vendas, garante José António Rousseau, professor e presidente do Fórum do Consumo, organização que debate as relações comerciais entre consumidores, distribuição e produção.

“Estes cartões podem facultar ao retalhista informação directa e fidedigna que mais nenhuma outra ferramenta poderá dar. Se hoje uma das variáveis fundamentais do negócio é o conhecimento do consumidor, o cartão capta toda essa informação”, continua o autor do livro “Manual da Distribuição”, lembrando que uma das grandes tendências do retalho é o “customer centricity”, ou seja, colocar o cliente no centro de tudo.

Os esquemas de fidelização trazem um retorno inegável. Um estudo da TNS, que analisou a relação dos consumidores espanhóis com 115 marcas de 16 sectores diferentes, concluiu que três em cada dez vendas se devem a este tipo de ferramentas. Os postos de abastecimento de combustível do Carrefour, a Sephora e a Marionnaud (ambas perfumarias) foram as cadeias com uma percentagem mais elevada de vendas atribuídas a um plano de fidelização.

Uma enorme base de dados
Tudo começa com uma pergunta: “Tem cartão de cliente?”. A adesão não demora mais do que cinco minutos e são pedidos dados pessoais considerados “básicos”. Nome, morada, data de nascimento, sexo, telefone, e-mail e, por vezes, o número de pessoas no agregado familiar. Quando o cartão tem associado um serviço de crédito (como é o caso do Jumbo), é ainda pedido o número de identificação bancária. O cartão é dado na hora. A partir desse instante, todos os detalhes de compras são registados e passam a fazer parte de uma gigantesca base de dados. “Há software, máquinas de processamento de dados, e cada vez que compramos é traçado um perfil com idade do cliente, onde vive, o que compra. Na prática, todas as interacções e rotinas”, diz Ricardo Mena, director da licenciatura em Gestão de Marketing do IPAM. Este serviço de análise é feito geralmente por consultoras externas, que se dedicam ao processamento de milhares de milhões de dados, constroem perfis específicos e caracterizam ao detalhe as pessoas que, todos os dias, entram nas lojas. Cada cliente é inserido num grupo com padrões de compra semelhantes (famílias com bebés, lares só com um elemento, entre outros).

É o que faz a britânica 5one, que trabalha com vários operadores portugueses (gasolineiras, lojas de conveniência e uma grande cadeia de distribuição que prefere não identificar).Criou um software que permite aos utilizadores acederem aos dados “em segundos e perceber, identificar e encontrar as respostas que precisam”, refere fonte oficial. “Os dados processados incluem cartões de fidelização e transacções feitas nos terminais de pagamento automático, assim como dados qualitativos e outros tipos de pesquisa de mercado como a estratégia de preço”, continua a mesma fonte, em respostas enviadas por e-mail. No caso dos cartões, a 5one “consegue identificar os grupos chave que estão mais ligados aos esquemas de fidelização e examinar em detalhe o seu comportamento, comparando-os com os clientes mais desligados”.

Num relatório da consultora Roland Berger sobre o retalho centrado no consumidor, lê-se que é possível apurar que produtos são colocados no carrinho e por quem. Sabe-se, por exemplo, que a Dona Gertrudes, casada, dois filhos adultos, compra geralmente em grande quantidade e quase sempre acompanhada do marido. Compra produtos alimentares de alta qualidade e tem um regime alimentar equilibrado, baseado em refeições caseiras. Não está preparada para o mercado das refeições já prontas e se tem uma pizza no congelador é apenas para as emergências. Ou também se sabe que a Joana, 35 anos, casada e com um filho, encara as compras como mais uma tarefa e foca a atenção no preço. Comer saudável não é a primeira opção e não tem tempo ou jeito para cozinhar. Dois perfis diferentes, mas que representam um padrão partilhado por milhares de outras pessoas.

Para António Rousseu, o Continente é a cadeia que melhor tem utilizado o seu cartão para conhecer a fundo os clientes. Os dados mais recentes divulgados pela empresa mostram a dimensão da adesão. O ano passado, o número de famílias aumentou para 3,5 milhões (mais 150 mil em comparação com 2012). Foram concedidos descontos em cartão no valor de 433 milhões de euros, mais 2% face ao período homólogo. Em 2012, este pequeno pedaço de plástico foi usado em 90% das compras efectuadas.

O PÚBLICO tentou obter detalhes sobre como o Continente usa a informação destas famílias, mas não foi possível mais do que respostas genéricas. A empresa recorda que esta ferramenta foi lançada em 2007 e permite aceder a um conjunto de descontos sem encargo adicional. O cartão dá ainda acesso a uma rede de parceiros, numa estratégia de promoção cruzada que junta festivais de Verão, jogos da selecção nacional de futebol, venda de gasolina ou de electricidade à oferta disponível nos hipermercados. Fonte do Continente adianta que o Plano EDP Continente, por exemplo, teve 146 mil adesões, “o que representou um crescimento de 46% da base de clientes da EDP Comercial”.

O Pingo Doce foi dos primeiros a avançar com um cartão de fidelização (o Dominó, como recorda António Rousseau), mas só mais recentemente decidiu revitalizar esta ferramenta com o Poupa Mais, em parceria com a BP. Sofia Lufinha, directora de marketing e desenvolvimento de negócio do Pingo Doce, conta que desde Julho de 2013, a cadeia de supermercados do grupo Jerónimo Martins começou a fazer promoções exclusivas para os aderentes do cartão, que já são mais de dois milhões (lares). Questionada sobre a análise do padrão de compras, Sofia Lufinha sublinha que o Pingo Doce se dedica ao estudo das “tendências de mercado e das preferências dos consumidores através de diversas ferramentas”, “muito importantes para o desenvolvimento de novos produtos, serviços ou mecânicas promocionais”.

Com 500 mil aderentes, o cartão Fnac foi criado para “estabelecer uma relação mais próxima com os clientes e desenvolver um serviço adaptado ao perfil de cada pessoa”, diz, por seu lado, Viriato Filipe, director de marketing e comunicação institucional. O comportamento de compra é registado e segmentado em vários perfis-tipo, o que permite à Fnac estabelecer quase uma relação directa “e garantir que as propostas de campanhas, promoções e benefícios possam ir ao encontro das necessidades e interesses de cada cliente”, sublinha Viriato Filipe.

Sem queixas
António Rousseau admite que nem sempre o cliente tem noção das análises feitas ao seu comportamento. Mas garante que “a maior parte das pessoas, sabendo como são usados os dados, não se importa”. De facto, à Deco, Associação de Defesa do Consumidor, não chegam queixas sobre o abuso dos dados pessoais. A jurista Ana Sofia Fernandes lembra que todas as bases de dados têm de ser registadas na Comissão Nacional de Protecção de Dados (CNPD) e que só o cliente pode autorizar a utilização dessa informação, nomeadamente por entidades terceiras. O PÚBLICO tentou com insistência obter informações da CNPD, mas sem sucesso.

Recentemente, o Parlamento Europeu aprovou alterações à actual directiva para a protecção de dados, que data de 1995 quando a Internet não era massificada. Entre as várias alterações (muito focadas nos dados online), introduz-se o direito de os utilizadores pedirem para os seus dados serem apagados. O pacote inclui restrições ao tipo de monitorização de comportamento que pode ser feito e estipula que o tratamento de dados só pode ser feito com o consentimento explícito da pessoa. As alterações serão agora negociadas com os Estados-membros.

Público,  – 13/04/2014 – 08:35

Cartão de fidelização do Continente já representa 90% das compras

Económico Sapo, Dircia Lopes, 06.02.2013

Os consumidores portugueses estão mais atentos ao factor preço, o que faz com que a adesão às campanhas promocionais esteja a crescer. Numa altura em que a adesão dos consumidores portugueses às campanhas promocionais está em crescimento, 90% das compras feitas na cadeia de hipermercados do grupo Sonae, o Continente, são com recurso ao cartão de fidelização desta marca. O número foi avançado pelo director de comunicação da consultora Kantar Worldpanel, Paulo Caldeira, durante a apresentação do estudo “Há luz nesta crise?”, que conclui que 85% dos consumidores – do universo de quatro mil lares inquiridos – “dão especial atenção aos descontos e ofertas especiais”. Em 2012, os descontos originados em cartão e talão no universo Sonae ascenderam a 425 milhões de euros, avançou fonte oficial do grupo liderado por Paulo de Azevedo. De acordo com a mesma fonte, o programa de fidelização do Cartão Continente passou a ser utilizado por mais de 3,2 milhões de portugueses. 

Seis em cada 10 portugueses usam cartões de fidelização em lojas

Seis em cada 10 portugueses usam cartões de fidelização em lojas

Pelo menos seis em cada 10 portugueses residentes em território continental, ou quase 5,5 milhões de consumidores, possuem cartão de fidelização de loja, indicam dados da empresa Marktest. De acordo com os resultados da primeira vaga do estudo ‘TGI’, 5 497 mil portugueses referem ter cartões de fidelização de lojas, sendo que entre os possuidores destes títulos de fidelização a maioria é composta de mulheres. O universo de cartões contabilizados representa 64.2% dos residentes no Continente com 15 e mais anos e 82.2% dos indivíduos que referem fazer compras de alimentação e detergentes.