Crianças adivinham como serão as lojas em 2040

HiperSuper, 18 de Dezembro de 2015 por Rita Gonçalves*

Desenho de Matilde Assunção

 

“Vamos fechar os olhos e imaginar que estamos em 2040! Estão a imaginar? Sabem quantos anos vocês têm?”. Na sua grande maioria com oito anos, as crianças do terceiro ano da Escola Básica José Cardoso Pires, na Costa da Caparica, concelho de Almada, abraçaram o desafio visivelmente empenhadas e responderam depois de alguma hesitação no cálculo mental: “33 anos”!

Com as crianças de olhos fechados, o ‘workshop’ avança: “Queria dizer-vos que, em 2020, uma nave espacial com 40 pessoas da terra saiu do nosso planeta em direção a uma nova terra para habitar! Essa nave chegou em 2040 e começou a preparar esse planeta para ser habitado com tudo o que é necessário, como transportes, comunicações, energia e educação, etc. Esse processo de desenvolvimento está a correr bem, mas as primeiras comunicações entre os viajantes e o nosso planeta mostram que há umas coisas que eles precisam de ajuda. Eles pediram a vocês para darem uma ideias, quem saber como podem ajudar?”.

desenho17_Hugo Rosario

A plateia responde “sim”, em uníssono, e o desafio tem início. São lidas em alta voz cinco perguntas, patentes em outras tantas cartas alegadamente enviadas pelos tripulantes da nave espacial. Este ‘wokshop’ resulta de uma adaptação do dia 1 do projeto City X, um workshop internacional para estudantes entre os 8 e os 12 anos que ensina a resolver problemas com recurso a impressoras 3D e processos de design, devidamente adaptado ao desafio desta reportagem: estimular estas crianças a partilharem as suas ideias sobre o futuro das lojas, concretamente em 2040.

desenho06_julio lopes

“Eu sou o Alfie, no nosso planeta a noite é muito longa e estamos a ter dificuldades no cultivo de alimentos”; “O meu nome é Barbara. Não temos escolas aqui. Como podemos, eu e os meus amigos, aprender?”; “Chamo-me Daniel. Este novo planeta tem diferentes germes e vírus. Como nos podemos manter saudáveis?”. Há respostas para todos os gostos. As crianças têm mentes abertas e idealizam facilmente soluções e ideias inovadoras para os problemas quotidianos apresentados, recorrendo ao seu imaginário e muitas vezes até à tecnologia, sempre vista como um elemento facilitador do dia-a-dia. É mais ou menos unânime entre estes futuros ‘shoppers’ que todos os objetos vão estar conectados quando forem mais velhos.

Mas este curto exercício serve apenas para abrir o ‘apetite’ intelectual dos mais pequenos. Vamos focar este artigo no próximo passo e o mais importante desta viagem ao futuro na cápsula do tempo destas crianças.

“Chegou uma última comunicação do Planeta X. O presidente dos cidadãos pediu-vos uma ajuda final. Eles querem fazer um centro comercial com várias lojas como quando tinham quando saíram da Terra! Mas agora as lojas são totalmente diferentes. São lojas do ano 2040. Como são agora as lojas na Terra já que estamos em 2040?”.

Inês Duarte

Durante cerca de 40 minutos, os pequenos pensaram, muitas vezes em grupo, e sintetizaram as ideias através de um desenho e um pequeno texto com a sua descrição. Publicamos as “melhores obras” e reunimos as respostas dos mais pequenos em oito grandes tendências: Robots, Lojas, Produto – Inovação, Conveniência, Comunicação e Interação, Pagamento, Ambiente e Segurança.

Além do contributo dos 25 alunos da escola básica localizada na margem sul do Tejo, mais 25 crianças, também do terceiro ano de uma escola em Lisboa, na sua grande maioria com oito anos, participaram neste ‘workshop’ adaptado e escreveram e desenharam a sua visão das lojas do futuro. Desengane-se se pensa que as lojas de brinquedos têm direito a mais esboços. Foram as lojas de desporto, algumas com insígnias devidamente atribuídas, as mais desenhadas pelos mais pequenos.

Se o argumento de que as crianças de hoje são os consumidores de amanhã não é suficiente para dar credibilidade aos seus testemunhos artísticos e visionários, então basta pensar que já são hoje (pequenos) consumidores e na sua maioria participam nas compras de família. Têm um papel ativo e influente nas decisões de consumo e são o maior potencial de riqueza de cada país. Tomaram consciência da crise económica do País. “A loja tem, calças, robots e perfumes que são grátis”. E demostram práticas de consumo e de poupança, além de uma vocação intrínseca para a solidariedade. O futuro são as crianças. E Portugal é um dos países do Mundo onde nascem menos bebés. Vamos ouvi-las!

Madalena Jóia

O retalho em 2040

As crianças mostraram a sua visão sobre as lojas em 2040 – de alimentos, de brinquedos, de desporto, de mobiliário para a casa, de tecnologia, de jogos, de perfumes e beleza, de roupa e acessórios e multi-produto – um horizonte de 25 anos. Reunimos as ideias em oito tópicos principais.

  1. Robots na loja para ajudar

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Na imaginação da maioria destas crianças os robots vão ser parte do cenário das lojas, vão ser úteis prestando serviços e obedecendo às ordens solicitadas, “obedecem a tudo o que nós dizemos”, mas também vão ser design, “na loja há candeeiros em forma de robot”. Alguns alunos arriscam mesmo dizer que no futuro as lojas vão ter apenas robots, “em vez de pessoas”. “Os senhores da caixa são robóticos”. Os robots estão na loja sobretudo para “nos mostrar onde estão os produtos” que queremos comprar. “Mexem-se sozinhos” e dizem “olá”.

Os robots são mesmo personagens. “A loja tem brinquedos que falam e obedecem”. Há versões de robot em formato de carrinho de compras e mãos robóticas. “As pessoas escolhem no catálogo e uma mão robótica vai buscar os brinquedos”. As mãos robóticas têm “sistemas GPS que indicam onde estão os produtos que nós queremos comprar”. Ou “um robot que estica o braço bem alto para ir buscar os brinquedos nas prateleiras mais altas” e ainda umas “prateleiras robóticas que vêm ter connosco e trazem-nos os produtos que queremos”.

  1. Lojas que entretêm e têm “pernas”Maria Inês Semedo

Para estas crianças não há dúvidas: as lojas físicas têm lugar reservado no futuro. Os mais pequenos sabem bem onde querem as lojas e como querem que estas sejam. “A loja tem portas em holograma com espelho, prateleiras invisíveis que fazem parecer que os produtos estão a voar e paredes digitais mas físicas”. “Tem uma bancada com uma mesa de vidro, luzes cor de rosa e laranja, uma televisão grande, casas de banho e sofás reais”.

Muitas lojas são flutuantes ou voadoras. Há até lojas submarinas. As lojas são temporárias e vão mudando de localização. “A loja flutua, os sapatos flutuam e as roupas andam sozinhas.

 

Inês Sousa

Tem teclas para carregarmos nos produtos que queremos que depois saem numa caixa ou encomendamos pelo PC e aparece ao nosso lado”. Também há lojas em formato de sapato, “o teto é feito de atacadores. Como a loja é flutuante, leva os produtos a casa das pessoas”. Lojas em cima de nuvens.  “Nós vamos para lá com mochilas foguetão”. E no topo das árvores e em rochas. “A loja está em cima de uma rocha, os produtos voam e os animais têm vida”.

É uma ideia comum que a loja é um local de entretenimento e diversão, onde as crianças podem ficar umas horas enquanto os pais vão às compras. “Uma parte é para as crianças brincarem enquanto os pais compram o que precisam”. “Lá dentro há uma bailarina, que se dá corda e ela dança. A bailarina está em cima de umas escadas ligadas a um computador. O computador tem teclas e cada uma destas dá uma melodia diferente, associada a um degrau”. “Em vez de cabides, as lojas têm lianas a segurar os produtos e o chão é feito de fogo para fazermos ‘slide’”.

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3. Os produtos vêm ter connosco

A conveniência é regra de ouro para os consumidores em 2040. Robots, elevadores e máquinas facilitam a compra e o acesso aos produtos. Ou a loja desloca-se mesmo até à casa das pessoas, assim como os produtos. “Encomendamos pelo PC ou aparece ao nosso lado”. “A loja é voadora e quando alguém quer brinquedos vai à casa das pessoas”. “A loja tem máquinas, introduzimos o dinheiro e sai o produto numa caixa”. “Um tapete rolante com carros que se dirigem a si próprios para as pessoas terem as mãos livres para agarrar as coisas que estão na lista”. “Carregamos num botão e as prateleiras mais altas descem”. “Entregamos uma lista e prateleiras robóticas entregam-nos os produtos que queremos”. “A loja tem um elevador com os vários pisos dos brinquedos, carregamos num botão e vamos parar ao sítio certo”. “Para ir para as lojas as pessoas circulam em passadeiras que nos levam às máquinas onde podemos comprar os produtos”.

Inês Nunes

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4. Produtos inteligentes e mutantes

. A loja “tem todos os produtos do mundo e muitos mais”. Produtos inovadores e inteligentes que “vão falar comigo”. “Aspiradores que lavam o teto e os vidros nunca se partem”. “Colas que deitam espuma e sapatos que se carrega num botão, deitam fogo e dá para voar”. Nas lojas alimentares há “carne do outro mundo, peixe do lago imaginário e legumes estranhos”. Na mesma linha, nas lojas de desporto as “bolas são feitas de metal e areia. E as bicicletas têm rodas de pedra”. “Os skates voam. E bolas de fogo são lançadas para luvas elétricas”. As lojas que vendem exclusivamente videojogos têm à venda as edições mais recentes dos ‘best sellers’ “PSP240, GT100, Dragon Ball 1000 e Minecraft100”.

Além de inteligentes, os produtos são mutantes e transformam-nos nos nossos personagens preferidos. “Esta loja tem sofás e cadeiras mutantes. Um perfume que quando usamos transforma-nos em vampiros e outro que nos transforma em lobisomens”. Os produtos auto reparam-se e são autónomos. Há “malas que tomam banho sozinhas”. E são feitos à nossa medida. “Esta loja vai ter uma pessoa que inventa os perfumes que as pessoas quiserem”.

  1. As coisas falam connoscoInês Magalhães

A loja, as paredes, as prateleiras e os anfitriões do espaço comercial vão falar e interagir connosco. Os robots vão guiar-nos. ´É por ali’. Cumprimentar-nos. “Olá”. As prateleiras têm vozes a dizer: aqui é o corredor dos..” Os produtos dizem-nos: ‘compra-me”. “A loja tem um poste à entrada que informa sobre a última novidade em câmaras fotográficas, agora, em 2040, têm pés e dizemos-lhes quando queremos fotografar ou filmar. “As lojas têm tabletes que se ligam ao nosso armário e sabem que roupa é que temos e depois escolhemos a roupa no tablet e o armário entrega-nos”. “Para as pessoas se orientarem nos corredores estes deviam ter os desenhos dos produtos, por exemplo o corredor com os legos devia ser pintado com legos”. E vai haver promoções e produtos gratuitos para atrair os consumidores às lojas. “Nesta loja há promoções e produtos grátis”. “Alguns produtos pagam-se e outros não, porque há uns que são preciosos e outros que não são”.

  1. Lojas verdes e sustentáveis

Pedro Santos

As crianças, talvez por terem vivido a “austeridade” imposta ao País com a crise económica e financeira que afetou o mundo, mostram preocupações genuínas com a poupança, o ambiente e a reciclagem. “Esta loja tem brinquedos recicláveis”. “O chão é feito de uma pedra que evapora o lixo”. “Na loja as camisolas são de erva. Em vez de elevadores há cordas para subir e descer. Em vez de cabides os produtos estão presos em lianas”. E trazem a natureza para dentro do ponto de venda: “A loja tem rosas amarelas e verdes”.

 

  1. Pagamento: sem moedas e sem interação

Joana Peralta

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“No futuro, as crianças não vão reconhecer notas e moedas”, disse recentemente Tim Cook, CEO da Apple. Os métodos de pagamento modernos, como o Apple Pay, vão acabar com as notas e moedas físicas”. As crianças tendem a concordar com a afirmação. “As pessoas quando entram recebem uma pulseira e quando saem não pagam nas caixas mas pagam nas pulseiras e depois entregam-nas aos guardas”. Esta ideia de segurança com guardas nas lojas é o ponto de partida para a próxima e última tendência.

  1. Lojas seguras

A segurança é mais uma preocupação manifestada pelos jovens consumidores. “Há um sistema que faz uma identificação prévia da pessoa para ver se é ladrão”. E como se podem ver em alguns desenhos há lojas protegidas com guardas no seu interior.

 

* Com Ana Monteiro e Luís Rosário

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